A Destruição da Fertilidade: a capacidade de gerar pode ser o nosso fim?

Suprimir a raça humana ao, voluntariamente, deixar de procriar, permitirá à biosfera terrestre retornar à boa saúde. Condições sufocadas e escassez de recursos apresentarão melhora à medida que nos tornarmos menos densos. (Movimento de Extinção Humana Voluntária)

por Maiara Amaral

Irei me aventurar, nesse ensaio, a dar a luz a uma reflexão experimental: seria possível a reprodução humana, símbolo de vida e prosperidade ser também a morte e o “fim do mundo”? Vou ensaiar responder essa questão com base nos textos de Eduardo Viveiro de Castro e Deborah Danowski (2014), Juliana Fausto (2015) e Caroline Fraser (2015).

Na mitologia grega Gaia é a grande mãe geradora, nascendo após Caos, implica a origem do mundo e seu ordenamento. Nesse mito de origem, Gaia, na minha percepção, seria um mundo sem humanos. Já para teoria científica, a “Teoria de Gaia”, de James Lovelock, a Terra seria uma espécie de simbiose entre todos os seres vivos, um grande superorganismo, em que todos os seres vivos estão ligados entre si para tornar a vida favorável. Eu acredito que não existiria, para essa perspectiva, um mundo sem nós ou nós sem o mundo, pois estaríamos todos interligados, e, a destruição de um seria a destruição do outro. A teoria de Gaia seria assim uma percepção diferente da Gaia mitológica.

Figura — Anne-Marie Zylberman — The Mother of the World

Gaia como um superorganismo1 não seria o que Eduardo Viveiro de Castro e Deborah Danowski (2014) chamam de Wilderness, um lugar em que a natureza viveria em abundância e harmonia sem a presença catastrófica da humanidade. Essa ideia de Wilderness, segundo os autores, de a natureza ocupar seu espaço no planeta Terra amenizando a humanidade e os desastres causado por ela é a base do movimento de extinção humana voluntaria que almeja nosso desaparecimento gradual pela via da abstenção da reprodução.

O movimento de extinção humana voluntária não deseja o fim do planeta Terra e nem o nosso desaparecimento de forma brusca e desastrosa; seria um desaparecimento gradual da nossa espécie através da não reprodução. A reprodução humana símbolo de fertilidade é compreendida, pelo movimento, como geradora de uma vida que não é saudável para a Terra, e, por isso, defendem a necessidade de não nos procriarmos, para aos poucos deixarmos de existir e assim a natureza conseguir persistir em sua harmonia. A não reprodução seria o nosso fim, um fim gradual que permitiria que Gaia voltasse ao seu estado mitológico de um mundo sem nós.

A reprodução humana para esse movimento tem uma importância central no que diz respeito a uma Terra sem humanos e ao ler sobre isso passou a existir em mim uma vontade de percorrer o caminho de uma possível relação entre a reprodução e o fim do mundo, e, para isso analisarei filmes de ficções científica que me permite tal itinerário.

Em Mad Max: Estrada da Fúria (2015) filme de ficção científica distópico, que revela um nós-sem mundo já que esse se encontra em precarização, existem as noivas parideiras, que são as escravas sexuais do Immortan Joe, o tirano que governa um dos últimos Oásis no deserto. Essas noivas nos permitem pensar a reprodução em uma distopia, essas mulheres eram vistas como recursos naturais não renováveis (assim como a água e os combustíveis), elas eram uma das riquezas do tirano e a dominação desses recursos era sinônimo de governabilidade. A importância das cinco esposas também se dava porque a manutenção do poder por parte de Immortan Joe dependia da perfeição física que ele não possuía, mas que os filhos dessas mulheres detinham.

Ao falar em reprodução, como percebemos no exemplo de Mad Max, falamos em mulheres, e, tendo em vista isso, trago aqui a antropóloga feministas Sherry Ortner2 (1979), que a partir da distinção natureza x cultura, vai desenvolver a tese de que a relação das mulheres com a natureza e o privado, e, a dos homens, com a cultura, com o social e o ambiente público, hierarquiza a relação mulher x homem, colocando-os como superiores, pois o social na figura do homem domina a natureza na figura da mulher.

Lendo Ortner podemos chegar a uma conclusão de que o Homem seria, consequentemente, o detentor do poder sobre tudo que está no “estado natural”, como a mulher. Uma percepção parecida com a concepção moderna de Homem que concebe a humanidade (a forma masculina) como soberana da natureza, como bem frisou Danowski e Viveiro de Castro (2014). No entanto essa universalização da dominação feminina através da distinção natureza x cultura vai ser questionada por ecofeministas e antropólogas como, por exemplo, Donna Haraway (2017) que propõe uma destruição das representações e de categorias que servem para “cristalizar” as realidades, como é o caso da distinção natureza — cultura que, para a autora, seria um naturalcultural fundido, sem hífen.

Ao tentar nomear a “época” em que nos encontramos se seria um antropoceno, capitaloceno, Donna Haraway sugere o termo Chtuluceno, pois o antropoceno demonstra continuidade um tempo composto de refúgios humanos e não humanos, e, que por isso mesmo se deve pensar em um termo multiespécie com uma miríade de temporalidade e espacialidades e que pretenda reconstruir refúgios e tornar possível uma recomposição biológica-cultural-política-tecnológica.

A ecojustiça deve abraçar as multiespécies e assim a diversidades de pessoas e para tal as feministas teriam um papel fundamental para desfazer as dualidades: genealogia\parentesco e parentes\espécies, promovendo, segundo Haraway, a ideia de que fazer parente é fazer pessoas, e não indivíduos, onde criaturas compartilham uma “carne” comum, ideia central do seu slogan “Make kin not babies”. Que diferentemente da extinção humana voluntária não objetifica um fim da espécie humana, mas que busca um bem-estar para os diversos humanos e não-humanos e não simplesmente seu fim.

Outro filme que trarei é Gattaca — A Experiência genética (1997), uma distopia que apesar de não ter na sua narrativa a preocupação com o fim do mundo escolhi trazê-lo por se tratar de um longa sobre eugenia social e a diminuição das barreiras naturais através de pessoas geradas pelo melhoramento genético.

Ao buscarem um aperfeiçoamento cada vez maior, através da tecnologia, a humanidade, na concepção que conhecemos hoje, passa a ser vista como composto de corpos inválidos e a ocupar um lugar de invisibilidade, já que não haveria espaço para esses indivíduos nesse mundo moderno; dando lugar para uma humanidade-sem-mundo que alcançou uma transcendência da corporalidade orgânica3.

A animalidade é vista no filme como algo negativo, e, aquele que se encontra mais perto da natureza deixa de viver seus direitos; o desenvolvimento das novas tecnologias de fecundação massacra uma “humanidade” inválida, o que me remeteu ao que Juliana Fausto (2015) coloca sobre os desaparecidos do Antropoceno, como desaparecidos políticos, criminosos radicais na monocultura civilizacional, e, que esse Antropoceno é resultado de um desenvolvimento que massacra populações classificadas como sub-humanas ou não humanas.

Ao iniciar esse ensaio apontei que estava a fazer uma experimentação que tinha como objetivo trazer narrativas do fim do mundo junto com a idéia de reprodução sem a intenção de gerar um “filho completo”, assim escolhi nesse primeiro momento guiar o texto através de narrações de um olhar moderno Ocidental construído através de uma perspectiva de uma humanidade distanciada da natureza e de um fim sem volta, que, por sua vez, se distingue da concepções de alguns povos indígenas que na sua visão cíclica do tempo o fim do mundo já aconteceu e sempre está preste acontecer, importando apenas o que aprendemos com esse fim-começo ou começo-fim.

Referência Bibliográfica:

DANOWSKI, Déborah; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Cultura e Barbárie Editora, 2014

FAUSTO, Juliana. Rato candango, homem zumbi. PISEAGRAMA Belo Horizonte, número 08, página 12–17, 2015.

FRASER, Caroline. Selvagem de novo. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 08, página 114-119, 2015.

HARAWAY, Donna J. Staying with the trouble: Making kin in the Chthulucene. Duke University Press, 2016.

ORTNER, Sherry. “Está a mulher para o homem assim como a natureza para a cultura?” In:ROSALDO, Michelle Z. e LAMPHERE, Louise (coords.) A mulher, a cultura e a sociedade.Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1979.

1 Gaia aqui entendido como a Teoria de Gaia, por Lovelock.

2 Estou citando o trabalho da autora compreendendo limitações do mesmo, como a universalização dessa concepção de que em todas as sociedades exista esta relação homem x mulher social x natureza

3 A idéia de Singularidade presente no texto de Eduardo Viveiro de Castro.

*Maiara Amaral é graduada em Ciências Sociais com ênfase em Antropologia pela UFBA, atualmente é pós-graduanda em antropologia pela mesma instituição e integra o grupo GIRA — Grupo de Estudos Feministas em Política e Educação.

**Texto elaborado pela autora como ensaio sobre Finitudes para o curso Antropologias no/do Antropoceno, ministrado por Thiago Cardoso, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal da Bahia, 2018

Antropologia, Ecologia Política e Contracolonialismo no Antropoceno twitter: thiagotxai Academia:ufam.academia.edu/ por Thiago Cardoso

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