A humanidade em extinção numa perspectiva animista da finitude do mundo

Por Pedro Silveira

Para que se preserve seu caráter hipotético, este ensaio se reserva ao direito de ser apenas um exercício da experiência do próprio texto, tal como é anunciado: livre de amarras temáticas, aberto à conexões diversas, dotado de sombras e lacunas que nos permitam caminhos diversos. A licença poética dessa experiência nos conduz à subversão de uma ordem contextual acadêmica, e assim nos permitimos a recusa da citação de trabalhos ou temas vizinhos, na contra mão de um modelo obrigatoriamente referenciado, direcionado, fechado. As fotografias aqui apresentadas chegaram antes das palavras, e a pretensão de uma experiência genuína aqui ficaria a cargo da tentativa de gerar um ato enunciativo pela articulação entre texto e imagens, amarrados pela experiência própria de conjecturar um pressuposto especulativo acerca do Fim da humanidade, já em curso. Portanto, a intenção aqui não é criar teses e (in)consequentes defesas, mas hipóteses para subsequentes debates.

Como descendentes diretos desta América e legatários que deveríamos ser dos ameríndios, tomamos de empréstimo algumas linhas de raciocínio traduzidas por antropólogos disciplinados que, determinados a lançar à luz discursos relegados à sombra pela ocidentalização do pensamento, nos apresentam cosmologias outras e não menos primordiais à se pensar urgentemente a finitude ainda porvir, e que já se impôs há tempos. O antropocentrismo (re)criado pelos brancos comedores de terra, estes tatus-gigantes, perecerá por si só e logo menos não restará uma alma antropomórfica sequer, de espécie maldita alguma, para recomeçar.

Pode soar catastrófico, mas nossos xamãs nunca proferiram um tempo longevo para este mundo, sabiamente fundado numa humanidade pregressa e fundamental. Pelo contrário, estes sabedores sempre estiveram convictos da fragilidade do presente que agora nos atormenta, suas sábias profecias evocam continuamente a responsabilidade humana na manutenção de um (des)equilíbrio cósmico precário e datado desde antes deste mundo. Os guaranis desta terra-sem-males proclamam que o primeiro mundo terminou em água; já o nosso, aqui e agora, está marcado para terminar em fogo. O amanhã será ardente, a paisagem parece estar em processo de cremação, e enquanto isso assistimos pasmados à destruição cada vez mais iminente de algum horizonte.

No afã de pilhar a Terra os tatus-gigantes já desencadearam uma vingança sobre o natural que insistimos em consumir só como notícia corriqueira. Minaram o rio e secaram o sonho movidos por uma avareza fetichista e sem tamanho, sovinaram um desejo coletivo e o esvaziaram de sentido quando transformado em moeda miúda do atual. Uma incapacidade confessa de ver, sentir e discernir a humanidade secreta intrínseca a todos os viventes e nao só aos humanos. Humanidade esta que é a semente e o solo primordial, além do princípio ativo da proliferação das formas vivas do que se tem como mundo: vasto, rico e plural. Pois, a destruição do mundo é a destruição da própria humanidade, consubstancial ao mundo e relacional como o mundo no seu sentido ampliado.

O desabamento do céu soa como numa longa noite de pesadelos, uma consciência replicante da necessidade de uma nova era carregada de grandes transformações. De certa forma, um pânico iminente de que nada se pode fazer contra uma consonância coletiva que assiste à chegada silenciosa de um fim gradual, e não súbito. Por outro lado, parece um sonho bom, desejo de nova desestabilização que possa nos mover um passo a frente da estagnação do potencial de transformação infinito da humanidade; criadora do mundo, das gentes, de tudo.

Parece um consenso que a ciência moderna criou uma lacuna enorme entre o sujeito do pensamento e o sujeito da experiência. A exatidão proclamada pela ciência relegou o sujeito à uma experimentação controlada, em detrimento de uma experiência inexata e incalculável. À percepção cultural da modernidade instaura-se uma ideia de choque, de perda do mundo, de uma crise espiritual da humanidade provocada por uma duplicação fantasmática da realidade, um esquecimento do ser. Um desaparecimento do mundo, que teria sido absorvido pelo sujeito e transformado em objeto; por outro lado uma desaparição também do próprio sujeito, que teria sido absorvido pelo mundo e transformado em coisa. A proliferação das imagens técnicas, iniciada lá nos tempos modernos, nos impõe um ponto de vista completamente hegemônico sobre o próprio mundo e uma homogeneização do desejo, do sonho. Empobrecimento de perspectivas diversas e distintas.

Do choque da modernidade passamos a um tempo anestesiante na contemporaneidade, capitaneado por uma estratégia de apaziguamento programado, operada através da captura do capital simbólico. Uma operação que busca a homogeneização do sonho e a eliminação de quaisquer conflitos, dissensos ou disputas. Construção hábil de uma subjetividade hegemônica, sem espaços, vias ou lacunas, para se imaginar outro curso que não seja o do empobrecimento da vida e a expropriação da experiência. De modernos passamos a pobres almas. A operação ininterrupta dessa anestesia capital atua como uma cortina de fumaça que nos impede de ver a retirada do direito fundamental às experiências genuínas — relacionais — se transformando na ostentação pura e simples de uma pobreza interna e externa. Hoje, a busca pela experiência encontra-se fora do próprio sujeito que nos constitui. O indivíduo, outrora produtor de cultura que acrescentava significações e perspectivas ao mundo, passa ser apenas um consumidor insano de uma cultura imposta. Um vício sem fim que impede a elaboração do pensamento, a criação de conhecimento e a característica mais intrínseca ao mundo: humanidade, já em vias de extinção. Uma incapacidade relacional, ofuscada pelo acúmulo indelével de objetos inanimados.

Coincidência ou não, o verbo compartilhar — to share — parece ter se tornado o imperativo maior das redes virtuais que interligam o sujeito contemporâneo, ainda que por traz deste verbo nobre esteja escondida a incapacidade crônica do sujeito que se diz praticante. Faz-se necessário uma atualização da noção de “barbárie” para os tempos sombrios experimentados agora. Hoje parece ser sempre ontem. A sociedade da informação interliga culturas distintas e elimina sociabilidades. Desta forma, entorpece as redes de uma pós-verdade perversa, singularmente orquestrada pelo interesse de propulsar um consumismo aceleracionista sem precedentes e que já não faz a menor questão de qualquer disfarce inclusivo. Muito pelo contrário, a escalada de um fascismo típico de outrora ataca deliberadamente grupos tidos como minoritários, mas que no fundo correspondem à maior parte da população. Esta última aplaude tais feitos, tempos depois de ter sido expropriada da experiência do pensar por si e ainda compactua com interesses obscuros de um aparelho que a exclui do debate e a cristaliza no único lugar possível; consumidores silenciosos, pacíficos e pactuados à exclusão lenta e gradual de si mesmos, varridos do seu próprio mundo. Tempos estranhos, onde o mundo que se fazia na pluralidade de sua humanidade passa a ser cada vez menos humano.

Aos que se auto proclamam contemporâneos, vanguardistas do agora, plenamente convictos de estarem à frente de seu próprio tempo, gostaríamos deixar apenas uma proposta para debate: nunca deixamos de ser modernos!

Para enfrentar uma próxima fase será preciso (re)animar o mundo e diversificar o pensamento. Urge o surgimento de verdadeiros avantgarde, não autoproclamados, observadores da vida, sabedores orgânicos, propagadores de conhecimentos ancestrais, reveladores de contra narrativas, preocupados com uma elucidação competente do que foi deixado de fora desta História homogeneizada que rege as rédeas do que se convém como mundo hoje. Todos juntos e concentrados sobre uma possível (re)fusão Natureza/Cultura distinta da cisão que colocou o Homem em algum lugar de prestígio acima de todos os povos e gentes; fato que, no fundo, nos afasta da Humanidade que poderia nos trazer algum otimismo em relação a um futuro cada vez mais incerto. Talvez seja da experiência de um dissenso coletivo que resultará algum lampejo de reconciliação do ser humano com alguma humanidade, antes que sejamos relegados a canibais do inframundo.

Quando é que seremos afetados por cosmologias outras e passaremos a disseminar perspectivas animistas deste mundo tão diverso que poderiam animar tanta humanidade a caminho do Fim?

*Pedro Silveira é fotógrafo, graduado em Comunicação Social pela PUC Minas com especialização em Artes Plásticas e Contemporaneidade pela Escola Guignard (UEMG), e atualmente mestrando em Processos de Criação Artística pelo PPGAV da Escola de Belas Artes (UFBA).

**Texto elaborado pelo autor como ensaio sobre Finitudes para o curso Antropologias no/do Antropoceno, ministrado por Thiago Cardoso, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal da Bahia, 2018

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