A (in)finitude da tartaruga

Aquarela da autora

Por Yara Coelho Neves

Porque tamanha implicação para se falar do fim? Sentei para começar a produzir este texto como trabalho de curso, mas então pensei que talvez fosse melhor, desta vez, produzir um desenho ou aquarela — da outra vez escrevi texto — pensei — desta vez poderia fazer algo diferente. Mas como desenharia finitude? Na verdade, acho que estava buscando apenas amaciar o assunto. Porque tamanha dificuldade para se falar do fim, se o fim é nossa maior certeza?

Mas questiona-se também a certeza desse término. Seria o fim de que? Do mundo ou do nosso mundo, esse mundo que conhecemos como mundo? No livro de Danowski e Viveiros de Castro há uma passagem falando que pensar sobre o fim do mundo é pensar sobre a origem.

O fim do mundo retroprojeta um início do mundo; no mesmo passo, o destino futuro da humanidade nos transporta para a sua emergência. A existência do “mundo antes de nós”, embora seja considerada por alguns como um desafio filosófico (ver adiante), não parece um estado de coisas de difícil figuração para o homem comum. Mas a possibilidade de um “nós antes do mundo”, a preexistência ontocosmológica do humano ao mundo, é uma figura menos usual na vulgata mitológica ocidental. Veremos que ela é uma possibilidade largamente explorada pelo pensamento ameríndio. (p.34)

Pensando pelo viés religioso, acredita-se que somos criação de um Deus e assim passamos a existir após este criar o mundo. Já no viés evolucionista somos originários dos macacos, que por sua vez já habitavam este mundo há algum tempo. Queria buscar um paralelo dessas duas percepções com uma viagem à praia do forte e ao projeto TAMAR que fizemos durante o curso. Em ambos os casos (Viés religioso ou evolucionista), percebam, nossa amiga tartaruga marinha já estava aqui antes de nós.

Na visita ao projeto, que cuida da preservação, nas praias brasileiras, desse animal, nos foi passado que a tartaruga marinha está ameaçada de extinção devido a tradição cultivada por longos nas vilas de pescadores de se capturar a fêmea para comer a carne e comercializar os cascos, e se coletar os ovos, segundo o biólogo que nos recebeu. Observamos no espaço de cuidado do projeto uma série de ações com a finalidade de preservar as cinco espécies presentes no litoral brasileiro (ao redor do mundo foram catalogados 8 espécies de tartarugas marinhas).

Em um determinado momento da visita ao projeto, uma bióloga nos contou que as espécies já estariam cruzando entre si e dando origem a filhotes mistos que ainda não teriam sido, de alguma forma, catalogados.

“Interessante”, eu pensei. E pensei de novo sobre o fim: “Seria o fim de que? Do mundo ou do nosso mundo, esse mundo que conhecemos como mundo?”. Um animal que sobreviveu a tantos milhares de anos como a tartaruga marinha talvez tenha achado a sua tática para prosseguir sua sobrevivência em um mundo com mudanças climáticas que afetam a sua forma de vida atual. E qual o problema nessa possível nova saída encontrada?

Para nós, o grande problema seria o questionamento acerca das espécies, mas na real esse questionamento não é aplicável à tartaruga, pois quem se preocupa com isso é só o ser humano. É o ser humano, com sua herança da modernidade, que cataloga, ou até chega ao extremo de tentar clonar espécies em laboratório, como citado em outro texto deste bloco. Essas preocupações não tangenciam a vida da tartaruga marinha. É a tentativa de domínio do ser humano sobre o que ele chama de natureza que produz a categorização de espécies e que se incomoda com esse ser hibrido que possa vir a surgir.

Nesta perspectiva de pensamento, o fim do mundo, talvez não seja o fim do mundo em si, talvez seja o fim só do mundo que conhecemos como mundo. O problema é que nos entendemos tão separados do restante, do que chamamos natureza, que fica difícil aceitar, por exemplo a hibridez da tartaruga como forma de sobrevivência e prosseguimento.

O que o ser humano não entende é que ele é apenas uma parte de um sistema muito maior que funciona interconectado, mas que funciona sem ele, de uma outra forma, mas funciona, então ele deseja controlar o sistema, coloca um radar na pobre tartaruga pra mapear onde ela vai, mas não consegue se unir como espécie. Não somos dominadores desse sistema, nem dominados por ele, somos ele. Mas sem entender isso vai ficar difícil para o ser humano se prolongar por aqui, ao que me parece, por tudo que já podemos observar, as chances da tartaruga andam bem maiores.

Sobre esse pensamento da finitude, da tartaruga que resiste e então existe, do homem que mal sabe mas é apenas parte de um tudo que funcionará sem ele produzi a imagem que se segue no inicio deste texto, afinal precisava amaciar o fim.

Será o humano capaz de entender que a finitude do seu ser não é a finitude do sistema maior ao qual ele pertence?

Será o humano capaz de entender que ele pertence?

Referências

DANOWSKI, Déborah; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Cultura e Barbárie Editora, 2014

*Yara Neves, arquiteta e urbanista graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestranda do programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (PPGAU-ufba) na área de patrimônio.

**Texto elaborado pela autora como ensaio sobre Finitudes para o curso Antropologias no/do Antropoceno, ministrado por Thiago Cardoso, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal da Bahia, 2018

Antropologia, Ecologia Política e Contracolonialismo no Antropoceno twitter: thiagotxai Academia:ufam.academia.edu/ por Thiago Cardoso

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