A palavra pra casa é … Mundo!

o caminhar político da mulher indígena

Sônia Guajajara e lideranças indígenas em evento na Universidade Federal da Bahia (janeiro de 2018, imagem: Thiago Cardoso)

Em pleno Rock in Rio, em setembro deste ano, a cantora norte-americana Alicia Keys em dado momento parou de cantar uma música que tratava da devastação do meio ambiente e começou a falar sobre a importância de cuidarmos do planeta. Em companhia de um samba, sob som da cuíca e do cavaquinho, subiu ao palco junto a ela uma grande liderança brasileira: a líder indígena Sônia Guajajara, atual coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).

Sônia falou da importância de se garantir os direitos territoriais dos povos indígenas e denunciou empreendimentos minerários na Amazônia apoiados pelo governo brasileiro: “Existe uma guerra contra a Amazônia! Os povos indígenas e o meio ambiente estão sendo frontalmente atacados”. Meses depois esta grande mulher que costuma discursar e atuar desde os corredores do congresso nacional às assembleias da ONU foi convidada por um partido de esquerda, o PSOL, no qual é filiada, a ser pré-candidada a presidente da república, seguindo um caminho já aberto por Marichuy, outra mulher indígena, atual candidata à presidência do México com amplo apoio do Congresso Nacional Indígena.

Ao mesmo tempo em que Sônia torna-se referência da luta indígena, outra mulher, Nara Baré passa a assumir a maior organização indígena da Amazônia brasileira, a COIAB. Elas são exemplos da maturidade da organização das mulheres indígenas em diversos campos e que se inicia no âmbito da aldeia, junto com os homens, e se consolida da criação de uma vasta rede de organizações associativas, conselhos e comissões de mulheres de norte a sul na América indígena. A sua emergência dá-se, notadamente, sob a forma de direitos mais recentemente reivindicados pelas mulheres e de construcão de projetos de autosustentação econômica. As duas primeiras organizações brasileiras exclusivas de mulheres indígenas surgiram na década de 1980, sendo consideradas as pioneiras a Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (Amarn) e a Associação de Mulheres Indígenas de Taracuá, rios Uaupés e Tiquié (Amitrut).

A participação das mulheres indígenas e de suas organizações nos ambientes interétnicos não é algo novo e é muito inspirador. Lembremos de figuras como Rigoberta Menchú Tum, indígena guatemalteca do grupo Quiché-Maia que foi agraciada com o Nobel da Paz de 1992, pela sua campanha pelos direitos humanos, especialmente a favor dos povos indígenas, sendo Embaixadora da Boa-Vontade da UNESCO. E de Silvia Rivera Cusicanqui, socióloga e ativista boliviana de ascendência aymara, vinculada ao movimento indígena katarista e ao movimento dos cultivadores de coca. Ela, acompanhada de outros intelectuais indígenas, fundou, em 1983, a Oficina de História Oral Andina, grupo auto-gestionário que trabalha temas relevantes aos povos indígenas das Américas.

Desde muito nós antropólogxs aprendemos com os povos indígenas que chefia — ou liderança — e a ação política não são prerrogativas masculina. Percebemos, orientados por uma perspectiva feminista que gênero (e seus papéis) não é definido como algo estático, essencializado, mas sim resulta de atos performativos ao longo da vida, em diferentes etapas da produção de pessoas, que vai desde o nascer, a criação das crianças, ao preparo dos alimentos, da conexão entre a roça e mata no trabalho diário, na relação entre o mundo doméstico e o público, a casa-cozinha e a preparação das festas e rituais de caça. Ou seja, longe de associarmos as mulheres a interioridade dos cuidados no âmbito doméstico -a casa — e os homens a exterioridade da política — ao mundo — as mulheres, em seus domínios, trabalham junto com os homens para a produção da pessoa plena, deslizando suas vidas entre a casa, suas roças e quintais e o mundo das relações interétnicas e interculturais.

Vejamos como as próprias mulheres narram esta integração,

“Ser mulher Ticuna na minha geração é ser mulher guerreira, batalhadora, mulher que trabalha continuamente pela defesa de seu povo, de sua comunidade. Ser mulher indígena é ser aquela que mantém, lado a lado com os homens indígenas, o espírito guerreiro dos nossos ancestrais no seu corpo, na sua alma, no seu espírito, sem temer a nada. Hoje, nós, mulheres ticuna, também buscamos igualdade de gênero na política. O objetivo é seguir mostrando que as mulheres também sabem sobre política, dos saberes tradicionais, da cultura, de educação e de saúde; está na hora das mulheres ticuna serem as protagonistas. É hora de seguirmos construindo esses laços de poder entre as mulheres, para nosso conhecimento não acabar1. (Josiane Tutchiauna)

“As mulheres indígenas sempre participaram dessas lutas junto com as suas lideranças, junto com os seus caciques. Elas sempre tiveram também ao lado deles. Estamos conseguindo fazer com que as lideranças, elas vejam as suas mulheres não como objeto, mas como mulheres guerreiras que lutam com eles para o fortalecimento e o bem viver das nossas aldeias e das nossas comunidades, para o fortalecimento das nossas famílias 2.(Leonice Tupari)

Suponho ser possível afirmar que a antropologia produzida até a década de 80 entre os povos indígenas da chamada “terras baixas da América do sul”, era caracterizada por um olhar e um tipo de abordagem muito determinados por categorias importadas de outros contextos, usualmente ocidentais e eurocêntricos. Em geral se formulava uma equação universal: homens dominantes/mulheres subordinadas. Particularmente no âmbito da denominada antropologia do gênero, tal tendência parece ter desconsiderado as perspectivas locais, assim como uma abordagem focada nas relações concretas que considerasse homens e mulheres como interdependentes.

Atualmente diversxs antropólogxs reorientaram o debate. Cecília McCallum evidenciou em suas etnografias que para os Huni Kuin, estabelecidos no Brasil (Acre), a organização social depende dos processos generizados envolvidos na produção, distribuição e troca (principalmente de comida, afetos e bens), ou seja no processo econômico, de modo que somente adultos produtivos são totalmente generizados e apenas adultos generizados são pessoas completas. Vanessa Lea, ao investigar os Mebengôkre (Kayapó), fez uma crítica à filosofia dualista então em vigor, que descrevia as mulheres como encerradas no domínio doméstico, e os homens no espaço público, no âmbito de uma oposição rígida, incapaz, portanto, de perceber formas de relação em que as mulheres extrapolassem a esfera doméstica. Em desacordo com essa dualidade os Mebengôkre estabelecem que os bens mais valiosos para homens e mulheres, como os nomes pessoais e certas prerrogativas herdáveis, são os meios pelos quais os organismos são transformados em pessoas.

O protagonismo de figuras como Sônia Guajajara e Nara Baré, dentre tantas outras mulheres indígenas, seja em casa, no cuidado com crianças e plantas, seja em suas organizações e associações, no cuidado com sua aldeia e seu povo, demonstram que, relações assimétricas de gênero não devem ser automaticamente interpretadas uma vez que as posições se alternam conforme as circunstâncias sociais.

1 https://pib.socioambiental.org/pt/c/no-brasil-atual/narrativas-indigenas/nos,-mulheres-indigenas/e-hora-de-seguirmos-construindo-esses-lacos-de-poder-entre-as-mulheres

2 https://conexoes.socioambiental.org/serlideranca.html

Antropologia, Ecologia Política e Contracolonialismo no Antropoceno twitter: thiagotxai Academia:ufam.academia.edu/ por Thiago Cardoso

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