A vida multiespécie dos ferals dendezeiros

Dendezeiros são fazedores de mundos, e seu modo de vida contribui para conformar a textura da paisagem onde vivem. Dendezeiros não ocorrem apenas de forma subordinada aos humanos (Clement 1992), domesticado ou em um sistema de plantation, como nos conta a narrativa do excepcionalismo e do domínio humano sobre as “coisa do mundo”, mas, em muitas partes do mundo ele intra-age (Barad, 2007) no moldar a vida dos que com ele vive — ele faz paisagens em lugares precarizados ao longo dos processos coloniais e capitalistas nas margens das florestas tropicais no Brasil.

Para os índios Pataxó que vivem no litoral sul da Bahia, o dendezeiro é uma qualidade de coco, enquanto para os botânicos uma espécie da família das palmeiras (Elaeis guineensis Jacq.), com seus troncos robustos, recoberto com folhas pinadas de cor na maior parte do tempo marrom-acinzentado, que o circunda de forma irregular e caxos de frutos fortemente alaranjados. Para os Pataxó o dendezeiro é vida em crescimento e movimento, é planta que se vive junto num entrelaçamento entre muitas diferentes vidas (animais, vegetais, fungos), enquanto que para a industria o dendê é recurso natural, escravizado em campos monoculturais para a extração de seu óleo que adentrará nos circuitos das commodities.

O dendê possui um ligeiro gosto por um terreno arenoso e salino, próximo a um corpo d´ água. Não vive sozinho, como apregoa a literatura botânica, mas, assim como nós humanos, o dendezeiro não age só, mas sim colabora numa comunidade multiespécie, onde seu ritmo de vida coordena com o fazer de outras vidas e coisas. O dendê é planta de urubu, comida de pássaros como o papagaio ou de animais como a paca (agouti), óleo e atrator de caça para os humanos, e também para estes últimos, fonte de histórias contadas. É interessante compreendermos como o dendê produz suas relações e a textura de seu mundo, seu modo de intra-agir coordenado com outros outros, desafiando fronteiras e limites. O dendezeiro nos ensina que o fazer mundos não é limitado apenas aos humanos.

Para fazer uma antropologia além do humano, seguindo o modo de vida de animais, plantas ou fungos (Tsing, 2015), uma prática interessante é caminhar. As práticas de caminhada são um método antropológico negligenciado e têm um grande potencial para contar histórias de jornadas humanas e não humanas, coordenações e políticas no processo de fazer paisagens (Ingold e Vergnust 2008; Tuck-Po, 2008). Minha história com os dendezeiros veio da minha pesquisa de doutorado sobre a criação de paisagens no Monte Pascoal, no extremo sul da Bahia, no Brasil (Cardoso, 2016). Uma etnografia feita em caminhadas com os Pataxó para perceber as formas em que lugares-mundos são produzidos pela intra-ação de múltiplas linhas de vida. Paisagens que emergem do emaranhamento de práticas heterogêneas e formas performativas para moldar o mundo em experiências históricas, criativas, coordenadas e colaborativas. Dendezeiro são figuras relevantes aqui: crescendo em áreas perturbadas, eles “voam” entre os lugares, são transfiguradores de fronteiras.

Ao andar nos envolvemos em multiplas narrativas, atentos e percebedores dos fazeres: uma etnografia como arte da atentividade (art of noticing). Para a arte de perceber, como Anna Tsing (2015: 17) o fez com os mundos multiespecíficos dos cogumelos, eu incluo, a atentividade em movimento. É uma proposta para a nós antropólog@s prestarmos atenção aos movimentos e fluxos, ao crescimento e aos desenvolvimentos, caminhando como historiadores naturais antigos, mas não como um observador distanciado, com uma proposta de pesquisa positivista. Mas um caminhar como um encontro, com nossos companheiros humanos e não humanos. A arte de perceber em movimento é uma maneira de procurar o dinamismo e os ritmos de parceiros colaborativos nos fazer e desfazer a vida na paisagem. E para isso, como Tsing (2012) propõe, consideremos a diversidade contaminada e o distúrbio lento. Dendezeiros são bons para andar com sagacidade. Eles continuamente trabalham no distúrbio, na margem de manchas perturbadas pela “modernização do campo”

Durante meu trabalho de campo, fiz muitas reuniões e passeios com Joel Braz, um “lendário” Pataxó que lutou no movimento indígena para recuperar o “território tradicional”, agora nas mãos dos agricultores e das agências ambientais gestora das unidades de conservação de proteção integral (Parques Nacionais do Monte Pascoal e Descobrimento). Em nossas jornadas, Joel me fez ver que sua terra está cheia de carinho e memória. Em uma caminhada com ele em direção a seus lugares históricos que eu desloquei minha atenção à conexão entre a vida e a morte nas condições precarizadas da vida. Andar e fazer lugares, para Joel, é um ato político de cruzar limites impostos por limites, como as cercas de propriedade privada e Parques Nacionais. Mas tais práticas envolvem não-humanos que não atuam necessariamente através de humanos, mas através das linhas de suas vidas e encontros.

Com Joel me etentei para a feralidade dos dendezeiros. Dendezeiro e seus companheiros cruzam indiferentes as linhas entre os lugares onde os seres humanos vivem e os lugares onde eles não devem viver, ocupando manchas perturbadas, não obedecendo necessariamente os ditames do senhorio humano quando em coordenada intra-ação com muitas outras criaturas, principalmente com o urubu (Urubu-de-cabeça-vermelha”, Cathartes aura rulicollis (Lichtenstein) e com o inseto companheiro que aqui chegou com ele da Africa, o exímio polinizador chamado de Elaeidobius subvittatus (Curculionidae).No Monte Pascoal e com os Pataxó o dendê proliferou em sua forma espontânea e oportunística, associados às novas espécies com que passou a se relacionar: com o urubu , com pássaros, roedores, repteis e animais “domésticos”, ocupando manchas florestais abertas por humanos. O dendezeiro atrai os pássaros quando maduro com seus suculentos oleaginosos cocos. Neste momento os urubus começam a visitar as elevadas copas dos dendezeiros, aconchegando-se na base de suas folhas, os frutos assim são devorados e suas sementes dispersas em áreas abandonadas pelo uso agrícola: o dendê prolifera. Para os Pataxó o dendezeiro é planta de urubu, e algumas vezes poderia ser planta de gente.

Antes de chegar ao Monte Pascoal,no extremo suld a Bahia, o dendê seguiu seu caminho junto com seus companheiros. Originário da África o dendê atravessou o oceano na época colonial em viagens transatlânticas, entrou em correspondência com humanos e animais, fazendo uma enorme floresta antropogênica no sul da Bahia (Watkins 2011, 2015). Aqui, eles se tornam formas de vida espontâneas e oportunistas, penetrando em manchas de floresta tropical atlântica, criadas por queimadas para agricultura e campos de gado. No sul da Bahia, diferente por exemplo da Amazônia ou da Indonésia, o dendezeiro seguiu conectado com seus companheiro humanos na configuração dos lugares de resistência: na implantação de sistemas policulturais agroextrativistas miméticas aos da Africa, nas margens do sistema colonial da plantation. Formando as diversificadas florestas antropogênicas de Dendê que emergiram na costa baiana no rastro da agricultura de corte e queima e da exploração madeireira, em sinergia com solos e clima adequados (ver Case Watkins, [2011, 2015]).

O dendezeiro adentra, penetra os processos de ressurgência da paisagem, estando associado ao abandono da roça e ao encapoeiramento do lugar. Ao mesmo tempo, juntamente com outras plantas cultivadas, como o coqueiro, a mangueira e a jaqueira encapsula a história das praticas humanas e não humanas instituintes das cronotópia, e portanto a memória na paisagem.

Para muitos ambientalistas no Brasil, o dendê é uma espécie exótica à floresta tropical brasileira, um bioinvasor (GIASP 2015). A exoticidade do dendê o torna um inimigo a ser combatido pelas forças do Estado quando ele se encontra dentro de uma área protegida, como no caso dos Parques Nacionais onde vivem os Pataxó. Se para os Pataxó ele é vivo e pode ser nativo num emaranhado multiespécie, para os ambientalistas mais puristas, por ser exótico, ele não possui direito de ser descrito como uma espécie que existe na Mata Atlântica brasileira (IUCN-WWF 1998). A não ser como uma espécie de importância econômica — que portanto deve ser controlado e manejado — ou como invasor de áreas naturais, devendo ser controlado e exterminado antes que forme adensamentos e impacte as espécies ditas nativas. Neste último caso o dendê é descrito como um agente de alto grau de impacto.

As coisas ficam confusas quando os conservacionistas identificam esse conjunto de espécies contra a floresta tropical "intocada"; eles não devem banir as pessoas da história (Tsing, 2012).

Para Joel Braz, assim como para os Pataxó, o dendê existe, vive num lugar, interage, portanto tem direito de existência e de ter liberdade de se movimentar. Não é a toa que os Pataxó ficaram horrorizados com as práticas de controle de espécies exóticas, promovido pela agência brasileira do meio ambiente, o ICMBio, dentro do Parque Nacional do Descobrimento. Lá os Dendês foram mortos com injeção química (provavelmente de glifosato) e foram cortados. Segundo me explicou uma liderança indígena, o ICMBio assim o fez porque considera o dendezeiro uma espécie exótica, mas não só, isso seria uma prática de controle etnovegetal para impedir diretamente os Pataxós de adentrarem nas matas para caçar pacas (agoutis) que comem frutas debaixo dos dendezeiros. Como para os Pataxó os dualismos modernistas entre selvagem/domesticado, natural/cultural, exótico/nativo são mais fluidas ou até inexistentes, esta discussão essencialista não faz sentido em termos pragmáticos e ecológicos. Sendo assim, estes consideram “absurdo” e “criminoso” o ato de exterminar seletivamente os dendezeiros do parque. Para eles os dendês em sua vida multiespecífica são extremamente importantes para a vida humana e não humana, e não geram impactos para outras espécies, devendo permanecer no parque e fora do mesmo para que a população de fauna tenha mais alimento num contexto de precarização generalizada dos lugares vitais para os humanos e não humanos devido ao desmatamento histórico no litoral baiano. Em outras palavras, o dendê ali, no mundo Pataxó não ocorre em relações similares ao controle domesticador da plantation de dendê em campos do capitalismo local-global.

O dendê resiste, e resiste com urubus, insetos, pacas, papagaios e gentes. Sua história multiespécie no Monte Pascoal, faz parte de um rol de muitas histórias de mal-entendidos entre projetos de paisagens dos ambientalistas, dos pataxós e do próprio dendê, em torno das as noções de exótico e nativo. Andar e seguir os dendezeiros nos ensina que a divisão entre o doméstico e o selvagem é um caso muito particular de habitar e pensar um mundo.

*Tradução e adaptação de The Multispecies Life of Feral Dendezeiros: Ethnography in Motion”, publicado em fevereiro de 2016 no https://aesengagement.wordpress.com/2016/02/02/the-multispecies-life-of-feral-dendezeiros-ethnography-in-motion/

Bibliografia citada

Barad, Karen Michelle. 2007. Meeting the Universe Halfway: Quantum Physics and the Entanglement of Matter and Meaning. Durham, NC: Duke University Press.

Cardoso, Thiago Mota. 2016. Paisagem em transe: uma etnografia sobre a poética a cosmopolítica dos lugares habitados pelos Pataxó no Monte Pascoal. Tese de Doutorado em Antropologia Social, Florianópolis, UFSC.

Clement, Charles. 1992. Domesticated palms. Journal Principies Vol. 36 (2), pp. 70–78.

GISP. 2005. Programa Global de Espécies Invasoras. América do Sul invadida. A crescente ameaça das espécies exóticas invasoras. 80p.

Ingold, Tim and Vergunst, Jo Lee. 2008. Ways of Walking: Ethnography and Practice on Foot. Ashgate Publishing.

Tsing, Anna. 2016. Margens indomáveis: cogumelos como espécie companheira. Ilha Revista de Antropologia, 17(1), 2015.

Tsing, Anna. 2015. The mushroom at the end of the world: on the possibility of life in the capitalist ruin. Princeton University Press.

Tsing, Anna. “Contaminated Diversity in ‘Slow Disturbance: Potential Collaborators for a Liveable Earth, ” In: “Why Do We Value Diversity? Biocultural Diversity in a Global Context,” edited by Gary Martin, Diana Mincyte, and Ursula Münster, RCC Perspectives 2012, no. 9, 95–97.

Tuck-Po, Lye. 2008. Before a step too far: Walking with Batek hunter-gatherers in the forests of Pahang, Malaysia. In. Ways of Walking: Ethnography and Practice on Foot. Ashgate Publishing.

Dransfield, J, Johnson, D and Synge, H. 1988.THE PALMS OF THE NEW WORLD: A CONSERVATION CENSU,. IUCN-WWF, Plants Conservation Programme, №2.

Watkins, Case. 2015. African Oil Palms, Colonial Socioecological Transformation and the Making of an Afro-Brazilian Landscape in Bahia, Brazil. Environment and History, volume 21

Watkins, Case. 2011. Dendezeiro: African Oil Palm Agroecologies in Bahia, Brazil, and Implications for Development. Journal of Latin American Geography, 10(1): 9–33

Antropologia, Ecologia Política e Contracolonialismo no Antropoceno twitter: thiagotxai Academia:ufam.academia.edu/ por Thiago Cardoso

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