Em um beco, no Centro Histórico de Salvador, Fotografia de Thiago Cardoso (2000).

por Thiago Cardoso

O livro “Entra em Beco, sai em beco”, da antropóloga e professora Urpi Montoya, é uma destas obras etnográficas que inspira. Fruto de uma pesquisa pós-doutoral, a obra busca articular pessoas e habitações, para tratar de formas de habitar sob um olhar etnográfico. Em suas linhas, tais formas de habitar vão dando contornos a histórias sobre lugares em que a marca da desigualdade perfaz sua própria história, a cosmografia do Centro Histórico de Salvador, mas que até então só vem sendo visto e retratado pelas lentes do discurso colonial, racista e da estigmatização dos habitantes de suas margens.

“Entra em beco, sai em beco” é uma história outra de um Centro Histórico, que tentarei resenhar aqui para vocês. Uma resenha escrita que é fruto de uma resenha oral performada no lançamento da obra, em São Lazaro, na Universidade Federal da Bahia sob o convite da própria autora. Não vou esconder minha timidez com esse exercício e nem minha surpresa com o convite que me foi feito e, ao mesmo tempo, meu assombro, pois o que teria a dizer eu, que persegui trilhas e caminhos de pesquisas por entre a etnologia indígena ou dos povos e comunidades tradicionais, sobre uma obra de antropologia urbana que trata de gentes do centro histórico de Salvador? Que bases eu teria para formular alguma questão sobre tal realidade etnografada. Como dialogar com Urpi e seus interlocutores. Eis o primeiro desafio.

Um outro desafio, mais no nível íntimo. “Entra em beco, sai em beco”, o livro escrito por Urpi, me fez ver minha própria imagem espelhada na cidade em que nasci, cresci e perambulei. Me fez ver meu modo de habitar — homem, branco, de classe média alta — nos meandros do centro da cidade de Salvador, daqueles que, como eu situado, caminham no Centro a partir do centro, e que exotizam e subalternizam os “periféricos”, aqueles que habitam as margens do Centro, os “assombrados” e “temíveis” becos. Me fez olhar meu passado e como eu percebia e valorava os personagens do Centro Histórico por uma lente colonialista, racista e estigmatizante: como habitantes marginais das margens: “gentes da violência e da malandragem, do trafico de drogas, vitimas da pobreza”. Menos pelas sociabilidades, experiências vividas, memórias e afetos, e sonhos de se viver melhor, uma vida melhor, um habitar melhor. Estes outros, os dos becos, vistos sempre-ou-quase-sempre pelo habitar marginal da cidade, nunca habitares no plural: esta alteridade próxima, esse outro familiar, como diria Gilberto Velho, mas ao mesmo tempo distante de mim: a margem estava logo ali, mas tão distante…

Ao ler a obra de Urpi pude me refazer. Certamente, após a leitura de “Entra em beco, sai em beco”, não andarei pela soteropólis da mesma forma. Os becos nunca serão os mesmos. Percebo agora, como andava, como andei, como andarei no centro — invertendo o centro no/do meu imaginário e apontando para um Centro Histórico, como diria o saudoso Chico Science, como um exemplo de que “a cidade não para, a cidade só cresce, o de cima sobem e o de baixo descem”. Os platôs e ladeiras do alto para o abastado, o empresariado e o visitante, os becos e margens, as baixas, para o habitante empobrecido e perpetuamente deslocado, mas que resiste e existe imerso numa rede de rica sociabilidade e histórias que fazem o Centro existir enquanto lugares de vivencias, sorrisos e sofrências.

Portanto, habitei um livro. O primeiro movimento que fiz ao habitá-lo para poder dizer algo aqui sobre ele, guiado provocativamente pela autora, foi aceitar me por na “barriga do monstro” e, com muito frio em minha própria barriga, tentar dissipar criticamente a ideia de um dualismo ontológico rígido entre o que seria o urbano e o rural que subjaz muitos estudos que dividem seu público em sociedades complexas versus sociedades de pequena escala, em outras palavras, era necessário me desfazer do continuo Cidade-Campo de Redfield e, ao mesmo tempo, da ideia de que o campo seria o locus da tradição, do costume, da sociedade, do parentesco e, a cidade, o espaço da estrutura da modernidade, individualista, progressista, livre. É bom que se diga, que esse movimento de critica a estes grandes divisores não é novo nos estudos de antropologia urbana ou nem mesmo de etnologia indígena com um olhar aos povos na cidade. Ambos se movimentam para um entrelace comparativo bem produtivo, como bem apontou Urpi ao dialogar com uma literatura extensa. Se posso afirmar uma primeira aproximação entre o que faço e o que aqui foi feito, poderia dizer que o uso do conceito de habitar e de lugares (ver Ingold, 2000), centrais no livro de Urpi, poderia ser uma chave interessante para dissipar tais dualismos modernistas e podermos, por exemplo, comparar cuidadosamente experiência de habitar o mundo numa metrópole com uma aldeia indígena amazônida.

“Entra em beco, sai em beco”, desafia tais dualismos. O livro de urpi trata-se de uma etnografia densa sobre modos de habitar (no plural) becos/avenidas, casarões, cortiços e ocupações nas margens e no interior do que seria um Patrimônio Histórico Mundial, na metrópole soteropolitana. É um livro fruto de uma pesquisa etnográfica sobre lugares, e não só sobre lugares, mas sobre entre-lugares, becos, avenidas, caminhos, ruínas. Lugares aqui na obra de Urpi não são densidades físicas ou sociais, mas intensidades relacionais, marcas dos encontros que se fazem nos movimentos e sociabilidades de coisas e gentes de carne-e-osso ao longo de suas trajetórias de vida e memórias. Gentes marcadas pelos entrelaçamentos e pelas tensões da intimidade da vizinhança, da vida comunitária, do medo e da dignidade que, junto ao trabalho e às atividades cotidianas performam a taskscape, que nos termos do antropólogo Tim Ingold, pressupõe uma texturologia de uma paisagem de atividades.

Mas o livro não trata de quaisquer lugares, mas sim do tecer modos de habitar microcosmos de Salvador, ou um território, se seguirmos a concepção dos interlocutores de Urpi, o CENTRO, e ao mesmo tempo, do direito a CENTRALIDADE, da reivindicação secular ao direito à cidade frente as forças maquinicas da desterritorialização colonial e pós-colonial, tão bem descrita nesta obra. São lugares, como diria Urpi, “que partilham igualmente a condição de serem irrelevantes por serem lugares de pobres e pobreza, sobre os quais a maioria dos mortais nada sabe e nem quer saber”, são lugares e caminhos (becos, cortiços, casarões ocupados) de diferença, não por serem, os habitantes do Centro histórico diferentes (aqueles das margens do centro, versus o nós do centro), mas por que neles se produzem diferenças. Aqui, nesse ponto, o livro me provoca em outros caminhos comparativos, em termos políticos, confluindo realidades urbanas, do campo, das matas e das aldeias — pondo junto habitantes urbanos latino americanos sempre-quase-sempre deslocados do centro e indígenas em seus territórios cada vez mais ameaçados, o que nos incita a pensarmos junto os modos de habitar dos despossuídos pela maquinaria apropriadora e privatista do capital, os desterritorializados pela tomada de terra e lugares promovidas pelas agências do Estado, os deslocados às margens pelo plus ultra modernizador do desenvolvimento e do patrimônio, aqueles que são desafiados e desafiam o aparato estatal e suas praticas de fazer mundos.

Urpi buscou, nos sete capítulos da obra, histórias dessas diferenças, mas não histórias do CENTRO que perfazem o centro nervoso do discurso colonial, as narrativas do patrimonio, da modernização imobiliária e do turismo no Centro Histórico, mas histórias, como ela mesmos diz, das margens, histórias das gentes e seus lugares invisibilizados. Tais gentes habitam historicamente espaços heterogêneos como a Baixa dos Sapateiros, locus de boa parte das descrições etnográficas e históricas de vida registradas por Urpi.

Sugiro então ao leitor adentrar calmamente em seus dois capítulos iniciais para compreender como a Baixa dos Sapateiros, seus becos, lojas, cortiços e casarões foram tornando-se habitações ao longo das atividades das gentes, dos vários tipos de comércios (formal e informal) que tomavam e tomam conta de suas ruas com venda de gêneros variados, desde que a Baixa deixou de ser um pântano fétido para se tornar um vale movimentado por diversos tipo de empresários, pessoas escravizadas e trabalhadores precarizados, povos de santo e capitães de areia que entre ruas e atividades foram performando os becos e casarões que vemos como território do povo preto, alguns hoje desabando, outros em ruína, alguns conservados e reformados pelo poder público. Gentes com histórias singularizadas pela sobrevivência e pelo deslocamento constante, mas ao mesmo tempo que ocupam becos, ocupam casarões, se organizam em movimentos dos sem teto, enfrentam quartos diminutos e úmidos em salões subdivididos, tecem parentesco e vizinhanças, tomam cerveja juntos, performam táticas de sobrevivência, habitam a violência, multiplicam formas de obter renda e modos de subverter as forças modernizadoras,

Trata, portanto, de um trabalho antropológico interessado em gente, em pessoas e suas formas diacrônicas e sincrônicas de habitar, nas palavras de Urpi, de “suas formas de estar-juntos e estar-envolvidas”, ou seja de modos de serpentear os labirínticos espaços e lugares na baixa dos Sapateiros, passando pelo Pelourinho, circundando o Passo, o Taboão, Santo Antônio, o Maciel, dando forma, cores, sonoridade e cheiros ao Centro histórico de Salvador. É seguindo tais labirintos que Urpi descreve as diversas práticas de habitar o centro: o habitar a vizinhança, o habitar comunitário, o habitar digno e o habitar coagido, que em comparação a outras formas de habitar o centro, como de Lisboa, também estudado por Urpi, se mostra prenhe de relações intensas e organicidade.

O conceito de habitar, como o próprio titulo do livro indica, é central no livro de Urpi— é seu timoneiro-mestre. Sua pesquisa se debruçou etnograficamente sobre diversos modos de habitar o Centro histórico, o que ela denomina de práticas do habitar. Me arrisco a dizer que estamos diante de uma proposta de se fazer uma “teoria etnográfica do habitar”. Digo teoria etnográfica pois, ao invés de tecer sua pesquisa apoiada em teorias ou categorias pré-estabelecidas, o livro nos brinda com detalhada descrição dos espaços habitados, das gentes e de suas memórias e é a partir destas histórias e movimentos que emerge em primeiro plano a vida vivida no centro e as concepções “nativas” da centralidade enquanto prática de estar-junto-no-mundo: os modos de habitar. O habitar deve ser entendido aqui em seu sentido amplo e aparece então, em seu texto, a partir da experiência vivida em campo e no debruçar de uma literatura histórica sobre o Centro histórico de Salvador.

Para Urpi o resultado expressa formas de habitar diferentes, não um único modo de habitar o Centro: mas sim vários modos de habitar, onde habitar pode ser tido como, nas palavras da autora, “um demorar-se entre as coisas, estar no meio delas, envolvido, enraizado com elas, é estar-junto, implicado co coisas, seres e espaços”. Formas diferentes de habitar são, novamente nas palavras de Urpi “formas distintas de estar ou ver-se envolvido com os outros, nesse caso, com os vizinhos próximos e os longínquos”, gentes em tensão e confluências desiguais com agentes do estado, com o tráfico de drogas, com transeuntes e com turistas.

Abro um parênteses. É bom que se diga que a alusão ao habitar é inspirada nas propostas de autores contemporâneos como Tim Ingold e sua dwelling perspective, e nas bases filosóficas de autores como Martin Heidegger. O pensamento relacional em Ingold evoca no trabalho de Urpi, uma visão do organismo-no-seu-entorno, que fundamenta a perspectiva do habitar, reconciliando a separação entre humanos e o ambiente, entre material e ideal, e sujeito e objeto (Ingold, 2000). O habitar envolve se movimentar pelo mundo, percebendo-o e co-construindo com os outros habitantes e é nesse caminhar que histórias vão sendo contadas e marcas deixadas. Inspirada em Heidegger o conceito de habitar ganha contornos preciso em frente a ideia de construção e pensamento. Ao invés de construirmos sobre um mundo objetivo, dado de antemão, habitamos um mundo que já estamos em presença, e ao habitá-lo que pensamos e construímos habitações ao longo de nossa história compartilhada. Ou seja, em outras palavras, becos e casarões emergem a partir dos diferentes e, muitas vezes, divergentes modos de habitação que se cruzam no Centro histórico, perfazendo uma política do habitar ao longo do tempo. Portanto habitar não se reduz à seus elementos materiais, as construções, mas sim são modos de viver, de estar-no-mundo.

Foi tecendo as linhas desse novelo de modos de habitar, por meio da experiência etnográfica, que Urpi se desafiou a formular conclusões teóricas e generalizações cuidadosas, ou pelos menos de indicar tendências, conexões, distinguir perspectivas. Uma delas: de que no Centro Histórico, não haveria uma única forma popular de habitar, onde se associaria a condição de pobreza, de precarização e o mesmo formato físico (beco, patios, casarões) como forma semelhantes de habitar. Seriam diversas as formas de habitar o centro, onde não devemos confundir habitação popular com forma de habitar, em outras palavras, a mesma forma de habitação física pode engendrar diferentes formas de engajamento, relações e envolvimentos que se expressam em diferentes práticas que vão dialeticamente performando os becos e casarões.

Uma segunda reflexão diz respeito a impossibilidade de determinar o que é ou não é um espaço habitável. Para Urpi, se valendo de autores como Edward Hall e Amos Rapoport, não haveria um arrogante modo de afirmar um universal de boa ou má habitabilidade, o que nos leva para pensar na relevância de um detalhado esforço etnográfico que aponte para critérios diferenciados do que seria uma boa habitação. Uma terceira reflexão, em dialogo com Veena Das e Deborah Poole, Urpi trata da dualidade entre Centro e Margem. Urpi mostra como os becos/avenidas da baixa dos Sapateiros estão — em termos gerais — inseridos no que conhecemos como Centro Histórico, mas ao mesmo tempo são a margem desse centro, o que nos leva a tratar das fronteiras e como nas fronteiras são delineadas praticas diferenciadoras de habitar e de significar um espaço.

Por fim, Urpi reflete sobre a centralidade como ideal do morador do Centro, em oposição ao bairro, apontando por uma preferencia ao viver próximo ao trabalho e aos vizinhos e parentes, mesmo que tenham que adentrar em uma guerra dos lugares, como diria Raquel Rolnik, frente as forças gentrificadoras do estado, na busca para viver bem. Este intenso deslocamento dos “nativos” do centro, motivado por múltiplos fatores, me faz lembrar, com as devidas ressalvas, do modo de habitar de outro coletivo minorizado, os Guarani-Mbya, que se movimentam na busca pelo lugar bom de viver, para fazer seu tekoa onde se poderá ter uma vida boa e plena, em plena cosmoesfera arruinada pelo agronegócio e pela urbanização. Ou os Pataxó, povo com qual tenho imensa gratidão pelos anos de amizade e interlocução, que retomam terras cercadas para reconstruir lugares habitáveis para se “viver sossegado”. Habitantes das margens do Centro Histórico, Guaranis e Pataxós se movimentam para fazer do mundo sua casa e morada.

Me chamou muito atenção no “Entra em beco, sai em beco”, uma ancoragem da pesquisa com o engajamento politico da própria autora com os processos de despossessão dos moradores “pobres” do Centro Histórico, e um mergulho atento com as agendas e memórias das gentes expulsas e relocadas pelos diversos eventos criticos engendrados pelo poder público e pelo capital: higienismo no século XIX, obras de recuperação e modernização, leis e decretos de ordem, abandono dos casarões e especulação imobiliária. Neste caminho finalizo com uma outra pergunta: poderíamos pensar o trabalho antropológico como uma pratica de habitar o mundo e estar-junto? E, se sim, como tais práticas ressoam com os outros habitares ou com as questões postas pelos coletivos com os quais trabalhamos, em outras palavras e para ser mais preciso, como “Entra em Beco, sai em beco”, um trabalho que visibiliza as margens do Centro, adentrará na vida dos minorizados marginalizados que habitam a centralidade e que tipo de ressonâncias uma obra como está poderá ter ao visibilizar suas vidas.

Mas enfim, para finalizar, o que é o beco? Compreendi lendo o livro que não tem como termos uma definição a priori, canônica, mesmo que tal definição esteja nos dicionários. Há muitos becos e não um beco na Baixa dos Sapateiros e tais becos emergem dos diferentes modos de habitá-lo. Beco poderiam ser vistos como devires, lugares em plena produção pelos encontros incertos e contingentes de seus habitantes ao longo do tempo.

Becos são o que as gentes e outras vidas fazem dele: são, pelo menos se fazem…indomáveis.

Bibliografia

INGOLD, Tim. 2000. The Perception of the Environment. Essays in Livelihood, Dwelling and Skill. Londres/Nova York; Routledge, 2000.

URIARTE, Urpi Montoya. Entra em beco, sai em beco: formas de habitar o centro: Salvador e Lisboa. Salvador, EDUFBA, 2019, 367p.

Antropologia, Ecologia Política e Contracolonialismo no Antropoceno twitter: thiagotxai Academia:ufam.academia.edu/ por Thiago Cardoso

Antropologia, Ecologia Política e Contracolonialismo no Antropoceno twitter: thiagotxai Academia:ufam.academia.edu/ por Thiago Cardoso