Do luto à cura: a incansável luta dos povos indígenas da Amazônia frente à pandemia do Covid-19

por Thiago Cardoso

No momento em que escrevia este texto recebia a noticia da morte do xamã-kumu Higino Tuyuka, um dos grandes professores e intelectual indígena do Rio Negro, da Amazônia. Tive o prazer de conhecer Higino e de aprender com suas palavras e inspirações para atuar no campo da educação indígena, lugar onde ele era mestre. Este grande homem que pensava o mundo fará falta a um mundo cada vez mais vazio de sabedoria.

Antes da morte deste grande professor, atingido pela pandemia da Covid-19, vivemos o luto da perda de outros mestres de diversos povos como meus professores Amâncio Kaba e Vicente Saw, ambos Munduruku. Segundo a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira — Coiab, até o dia 14 de junho já foram 78 povos indígenas atingidos pela Covid-19, com mais de 3.600 indivíduos contaminados e 249 óbitos.

No Brasil, segundo dados compilados pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), principal movimento indígena do país, as mortes decorrentes da pandemia em comunidades indígenas aumentaram de 46, em 1º de maio, para 262, em 9 de junho. Na região amazônica a taxa de mortalidade por 100 mil habitantes entre indígenas é 150% maior que a média nacional, segundo dados inéditos de um estudo da ⁦Coiab.

Devemos ter em mente que fenômenos como a pandemia do Covid-19 são historicamente conhecidos pelos povos indígenas. Desde tempos da colonização os diversos povos indígenas no Brasil vem sofrendo do imperialismo ecológico dos invasores, com os incontáveis surtos epidêmicos, ataques virais, bactérias e outros agentes patológicos que provocaram uma significativa depopulação no continente. Isso não é novidade, está registrado na história, é a sombra do genocídio que paira em nossas vidas. Hoje em dia, são os profissionais de saúde do governo, muitas vezes com muita boa fé mas mal treinados e equipados, garimpeiros ilegais, missionários, madeireiros e outros invasores que estão entre os principais vetores de contaminação em territórios indígenas protegidos.

Por exemplo, segundo Dario Kopenawa, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami, entidade que representa os 26 mil indígenas habitantes do território Yanomami, a maior preocupação de seu povo agora é que os garimpeiros disseminem a doença para as comunidades, pois eles que serão os responsáveis em contaminar os Yanomami. A Hutukara se uniu a um consórcio de grupos de direitos culturais brasileiros e internacionais para lançar uma campanha intitulada #ForaGarimpoForaCovid.

Devemos compreender a pandemia entre os povos indígenas na Amazônia não apenas como um problema biomédico, mas também como um fenômeno socioambiental mais amplo que entrelaça aspectos políticos, socioeconômicos, biológicos e culturais. Os fluxos de mercadoria e a circulação de pessoas nesta grande região não apenas transportam cifras, objetos, sujeitos e ideias, mas também material genético, microorganismos, tais como bactérias, fungos e vírus. Dinâmicas que vêm se tornando preocupantes com a emergência climática e com o desmatamento da floresta. É nesse sentido que gostaria de ampliar a ideia de pandemia, entendendo-a como toda forma de contaminação multiescalar que interfere e impacta os corpos e as vidas dos povos indígenas e comunidades tradicionais, cujo o Covid-19 é mais uma de suas manifestações. Estamos frente ao genocídio, e a situação é extremamente difícil.

Com o coronavírus se espalhando por territórios remotos da Amazônia brasileira, líderes indígenas e autoridades de direitos humanos imploram para que o governo brasileiro adote medidas urgentes a fim de evitar uma catástrofe, mas seus pedidos surtem pouco efeito num governo declaradamente anti-indígena e negacionista.

Mas do luto, a luta. Os povos indígenas não estão de braços cruzados diante da paralisia governamental e lutam contra o avanço das contaminações. No início da pandemia, diversos grupos indígenas agiram rapidamente para conter a disseminação do coronavírus, eles se isolaram em aldeias distantes, ergueram barreiras sanitárias impedindo a circulação de estranhos, interditaram estradas e rios, costuraram e distribuíram máscaras e pediram a membros de povoados que permanecessem em suas aldeias. Cada uma a seu modo de proteção.

Estão obtendo recursos financeiros, equipamentos sanitários e alimentação por meio de campanhas elaboradas em processos solidários de autogestão junto com organizações não-governamentais, grupos de apoio e universidades. Estas são algumas das medidas adotadas pelas diversas organizações indígenas e pelas centenas de comunidades espalhadas por toda a Amazônia. Buscam assim o autocuidado com o próximo e preencher a falta de ações de um governo inepto e irresponsável. Estratégias de uso de ferramentas online estão sendo úteis para informar a população, como as redes sociais e webséries como a “Somos muitos povos contra a #Covid19”, que aborda a situação da pandemia através de depoimentos de diversas lideranças indígenas da Amazônia brasileira e a luta de cada povo no enfrentamento desta nova doença.

Em conversa que tive com o meu amigo e colega da Universidade Federal do Amazonas, o professor Gilton Mendes dos Santos, ele me chamou a atenção para um argumento importante sobre as estratégias ameríndias: que os povos indígenas desenvolveram modos de agir diante das epidemias que podem ser revisitados, reconhecidos e explicitados, mas também eles nos ensinam um ponto de vista diferente sobre a doença e a morte.

Foi neste intuito de evidenciar o ponto de vista amazônida sobre a pandemia que um grupo de pesquisadores indígenas da UFAM criou a iniciativa “Mapa da Pandemia na Amazônia”, com textos incríveis sobre o modos em que os sábios, mestres e especialistas de seus povos pensam e tratam em relação corpo, bem-estar, proteção, saúde e relatos orais sobre como tem vivido e percebido a pandemia a partir de sua condição de saúde. O mapa agora, em formato colaborativo, se ampliou para acolher textos e relatos em áudio de outros povos e comunidades tradicionais e será realizado junto a agência InfoAmazônia.

Mapa da Pandemia na Amazônia (NEAI/UFAM)

Os textos, ilustrados com desenhos esplendidos de Jaime Diakara, nos ensinam suas práticas tradicionais de proteção tanto das pessoas como dos ambientes, dos lugares, dos espaços de vida social. Uma das práticas é a “defumação”, isto é, o uso de certos elementos da floresta pelos xamãs para proteção, e outra, o emprego dos basese, conhecidos como benzimentos. Estas são duas práticas muito importantes para os grupos de língua Tukano da região do alto Rio Negro, como nos mostram os textos, e vem sendo adotadas frente a pandemia. Tal iniciativa nos evidencia que esses povos possuem diferentes concepções e práticas frente à pandemia, mas sem negar o conhecimento biomédico.

Importante percebermos que os povos indígenas que habitam a Amazônia não estão sendo vítimas passivas a contaminação pandêmica em suas dimensões biomédicas e socioeconômicas, mas sim agentes incansáveis no cuidado, na proteção e da busca da cura desta pandemia mortal que já levou muitas vidas. Em toda a Amazônia, muitos professores e professoras, xamãs, mestres e mestras do saber estão neste momento pensando e ensinando sobre a pandemia e ativando seus repertórios de cura. Seguem os passos e sabedorias legados por pessoas como Higino Tuyuka dentre tantos mestres que tombaram.

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