Jovens, Aspirantes e a Máquina Findadora de Mundos

Por Leonardo Brait

É como quando você armazena o alho por muito tempo […] uma textura meio doce, cremosa, bem arredondado — seu parceiro também deliciava-se — Tem um toque de nozes, com um quê de macadâmia — volta o primeiro — Parece que juntaram e socaram pimenta-vermelha, alho e nozes. Assim, os dois pesquisadores do Nordic Foods Lab comentavam a degustação de larvas gigantes de besouro, assadas de maneira rústica por senhoras velhas de pele escura que os ensinavam a coletá-las, em algum lugar da Austrália.

O documentário Bugs1, exibe a trajetória de Josh e Ben pelo mundo e de volta ao laboratório comendo insetos. Passando pela Austrália, Uganda, Itália e Holanda, convivendo, coletando dados e espécimes os pesquisadores parecem esperar configurar um grande almanaque de tesouros entomofágicos, que de alguma forma poderá despertar consciências e será ferramenta para deter a “má cultura” da monocultura, promovendo o sonho da sustentabilidade em sua retomada da terra2.

Nossos heróis pesquisadores estão entusiasmados. Ao ressaltar que não há nada como o Foods Lab no mundo, parecem querer dar vida a um híbrido supernovo, uma cultura de alimentação nascida de empreitadas antropológicas, com receitas tradicionais de insetos reinventadas na estética Gourmet da alta culinária europeia, e com seus valores nutricionais devidamente catalogados. Buscando uma alternativa ao que julgam alimentos artificiais, eles se aventuram em expedições por lugares que julgam edénicos, onde o humano ainda é um com a natureza, onde alimentam-se mais humanamente que os modernos: Comer larvas (natural/cultural) versus hambúrgueres (cultural/artificial), como suscita Ben.

A empolgação dos jovens transforma-se em perplexidade, mal-estar e impotência quando vão percebendo que, pelos meios que vêm tentando, sua metodologia, e pelas tendências mundiais, o que estão fazendo será de muito pouco efeito sobre a máquina de findar mundos, pior, pode tornar-se instrumento dela. Qualquer contorno feito a pedra dura do problema é sempre antecipado pelos atores ávidos por lucro, como quando exploramos mercadologicamente a imagem de animais em extinção para sua preservação, mas é o estilo de vida daqueles que consomem essa imagem que degrada seu ambiente essencial.

É no destaque deste sentimento de impotência entre jovens do antropoceno que começa outro filme, M Cream3, uma produção independente indiana. Neste, o personagem principal, Figaro, já se apresenta enquanto consciente de sua impotência diante qualquer tema que envolva guerras ou a máquina findadora de mundos, e, a partir disso, justifica sua postura junkie e incoveniente, despreocupado e abatido. Apesar da postura singular do Figs ser sua forma de lidar com isso, seus outros 3 amigos partilham de um sentimento semelhante, e que caracteriza toda uma juventude dessa nossa geração do fim. “Através das folhas de apatia, eu espio o latido feroz de minha geração[…]” Escrito de Figs sobre o seu mal-estar geracional, logo na abertura do filme.

Estes Indianos de classe média alta, de pele mais clara e feições diferentes daquelas que imaginaríamos usualmente seus conterrâneos, vivem em festas, ócio e mediando conflitos familiares burgueses. Eles vivem no automático, seu instinto, sua natureza é o que já fazem, a natureza de seu mundo moderno. Proposto como um road trip, este drama, um tanto melancólico no final, explora a história destes 4 amigos em busca de um Haxixe lendário, e como não poderia deixar de ser, no meio da busca acontecem muitas coisas que os amadurecem.

Ciente de sua impotência, e para não ser hipócrita, Figs é totalmente entregue ao seu hedonismo. Jay, outra personagem, é presidente do “clube de debate social” de sua universidade. É como se ela continuasse de onde parou Joshua, em nosso último filme, atuando a partir da universidade nos temas que te preocupam. A ineficiência e “hipocrisia” deste comportamento incomoda profundamente o protagonista indiano.

Estes são os dois personagens que resistem até o fim da trama. Envolvendo-se numa manifestação em defesa de uma floresta sagrada, eles apanham brutalmente da polícia, junto a outros manifestantes — na floresta, troncos enfeitados com lindos panos, num caso de coletivo laturiano. A floresta amanhece dizimada, mas nenhuma surpresa para os manifestantes, nem para o telespectador; Era uma causa perdida, todos já sabiam. Este emaranhamento dos personagens com um mundo eminentemente findante, proporciona a eles profunda inflexão, também no espectador.

Ambos os filmes situam-se e tratam do antropoceno 4 e de mundos findantes, sob diversas perspectivas, inclusive no forte mal-estar psicológico que acomete estes jovens. Ben, o mais entusiasmado com o projeto, o mais apaixonado pelas culturas insetívoras tem um choque ao perceber sua pequenez e abandona tudo, Figs, por sua vez, não quer sequer ter que passar por este choque. Os sentimentos de irrefreabilidade da máquina, irreparabilidade da destruição e nossa falta de imaginação política faz daqueles que se preocupam com o mundo, os jovens e os aspirantes, totalmente desamparados.

Bugs dispõe de um estranho epílogo, com uma epifania mais que óbvia, comer insetos não vai salvar o mundo, e poderes relevantes não se interessarão pelo tema se não for pela sua exploração extensivamente mercadológica. ‘Comida demais já temos, o problema, na verdade, é o capitalismo’. O pesquisador remanescente da dupla, Josh, contudo, continuará a investir sua vida em suas pesquisas, mesmo sem qualquer sinal de vitória.

O filme indiano, por sua vez, deixa claro que não há solução esquematizável, sendo engajar-se em lutas falidas não a solução, mas pelo menos um caminho melhor que entregar-se ao hedonismo ou a portar-se apenas como “mais um interessado nos problemas do mundo”, como vivia Jay.

Engajar-se em lutas perdidas, essa é uma mensagem comum dos dois filmes sobre os jovens e aspirantes viventes do antropoceno. Lutas perdidas, mas lutar. Algo difícil de entender, mas sensível. Uma personagem de M Cream, uma jornalista francesa, veterana de lutas, pode nos ajudar a entender. Ela diz simplesmente crer no potencial da causa. É o potencial da causa da multiplicidade de existências, da permanência de universos de percepções singulares, para que estes não sejam alvos da grande extinção do antropoceno de povos-espécies, portanto, que o mundo não empobreça mais5. E se há potencial, creio, uma hora ele efetiva-se.

Notas

1 Produzido por Rosforth & Cia. Direção de Andreas Johnsen. 2016, Países Baixos, Dinamarca, França e Alemanha. Internet. 73 minutos;

2 em DANOWSKI, Déborah; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Cultura e Barbárie Editora, 2014;

3 Produzido por Agniputra Films, Direção de Raza & Singh. 2014, Índia. Internet. 112 minutos.

4Em certa altura de Bugs, num hiato de diálogos, a câmera foca em na capa de um livro sobre a mesa “anthropocene — The Age of Man.”

5 FAUSTO, Juliana. Rato candango, homem zumbi. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 08, página 12–17, 2015

*Leonardo Brait é cientista social, graduando em biologia e mestrando em Antropologia pelo PPGA-UFBA.

**Texto elaborado pelo autor como ensaio sobre Finitudes para o curso Antropologias no/do Antropoceno, ministrado por Thiago Cardoso, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal da Bahia, 2018

Antropologia, Ecologia Política e Contracolonialismo no Antropoceno twitter: thiagotxai Academia:ufam.academia.edu/ por Thiago Cardoso

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store