O ensino de arquitetura e a dificuldade moderna de viver o fim

Por Juna Borges Vital e Silva

O Modernismo foi um movimento do início do século XX com importantes contribuições para a arquitetura e o urbanismo cujos mais influentes nomes na Europa e Estados Unidos são os arquitetos Le Corbusier, Mies Van der Rohe e Frank Lloyd Wirght. No Brasil, tem-se como mais relevantes os arquitetos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Dentre as principais características deste movimento, destaca-se a industrialização da arquitetura; a busca pela funcionalidade (a função determina a forma); resgate do pensamento grego; rompimento com o passado, com o tradicional ou local a favor de um international style, ou seja, a busca por um padrão universal, e a verticalização da produção — cabe ao técnico decidir qual a melhor solução a ser empregada. Portanto, a produção arquitetônica deste momento, seguindo um ideal “libertador” de práticas então entendidas como defasadas diante do intenso desenvolvimento tecnológico obtido com a segunda revolução industrial, visualizava os espaços como grandes tábulas rasas a serem “modernizadas”. Esta tendência foi fortalecida pelos impactos causados pela Primeira Guerra Mundial (1914–1918) haja vista a quantidade de cidades europeias total ou parcialmente destruídas nesse período.

Figura 1: Casa de Truus Schroder-Schrader projetada em 1924 por Gerrit Rietveld integrante do movimento de vanguarda do modernismo De Stijl (O Estilo). Nota-se o rompimento com a arquitetura tradicional e o purismo das formas geométricas e cores. Fonte: UNESCO, World Heritage Center. Disponível em: < https://whc.unesco.org/en/list/965> Acesso em: 22 out. de 2018.

A Ville Radieuse é um exemplo de proposição sobre tábula rasa: apresentada por Le Corbusier em 1930 durante os debates do CIAM (Congresso Internacional da Arquitetura Moderna) VIII, é um plano urbano não executado elaborado para substituir as cidades europeias vernaculares destruídas pela Primeira Guerra (fig. 2). Projetada segundo um rígido padrão geométrico; zoneada em setores de habitação, trabalho e lazer conectados por vias de grande porte e dotada de abundantes áreas verdes e iluminação natural: uma “máquina viva”, este era o ideal de cidade do futuro para Le Corbusier que terminou influenciando intensamente o urbanismo dos séculos XX e XXI. A pretensão de definir um padrão de cidade, controlando desde seu crescimento populacional e territorial até a distribuição espacial interna de cada unidade habitacional revelam a busca pela homogeneização, neste caso, em favor da funcionalidade. Assim, Le Corbusier explicou: “A cidade de hoje vem morrendo porque seu planejamento não está na proporção geométrica de um quarto. O resultado de um verdadeiro layout geométrico é a repetição, o resultado da repetição é um padrão. A forma perfeita”.

Figura 2: Maquete da Ville Radieuse (Cidade Radiante). Fonte: Archdaily via Land8.com. Disponível em: < https://www.archdaily.com.br/br/787030/classicos-da-arquitetura-ville-radieuse-le-corbusier> Acesso em: 22 out. de 2018.

Como reflexo da sociedade industrial, o modernismo se disseminou de forma hegemônica por vários países do mundo. É então no Brasil, em 1957, que se inicia a construção da utopia moderna do arquiteto Lúcio Costa na cidade de Brasília. Seguindo conceitos semelhantes aos da Ville Radieuse, Brasília foi edificada sobre uma planície do cerrado brasileiro, a já conhecida tábula rasa. Reconhecida internacionalmente, a arquitetura moderna brasileira possuiu grandes expoentes e uma ampla produção que extrapola a cidade de Brasília, tornando-se uma referência fundamental para o país.

Figura 3: Plano Piloto de Brasília. Fonte: CAU BR. Disponível em: <http://arquiteturaurbanismotodos.org.br/plano-piloto/> Acesso em: 22 out. de 2018,

Acontece, porém, que diante de um contexto de crescimento e densificação das cidades, os espaços livres se tornam cada vez mais escassos, cresce também o número de pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade, de modo que a tabula rasa se torna cada vez menos possível, e menos viável. Nem a utopia moderna de Brasília resistiu: inicialmente prevista para 500 mil habitantes, sofreu uma série de intervenções e acréscimos.

A década de 1960 é marcada por duras críticas à sociedade industrial, e consequentemente ao movimento moderno, as quais perduram até hoje. Entretanto a metodologia de ensino de muitas escolas de arquitetura brasileiras, inclusive da Faculdade de Arquitetura da UFBA, ainda carrega muitos traços modernistas em sua essência. Isto, a primeiro ver, não significaria necessariamente um problema, uma vez que o modernismo trouxe contribuições excepcionais para o campo da arquitetura. Contudo o que se percebe é uma reprodução de valores que, se antes já eram demasiadamente funcionalistas, autoritários e desconectados com as diversas realidades vividas, hoje, tornam-se escancaradamente conflituosos frente às dificuldades de pensar a cidade atual e tanto mais sonhar outras cidades. Com importantes exceções, os exercícios das oficinas de projeto consideram majoritariamente terrenos vazios para elaboração de propostas, o que também não seria um problema se outras situações projetuais fossem trabalhadas com maior frequência. Destes exercícios, não são muitos cuja relação do lote com o entorno, menos ainda com a cidade ou a paisagem, é de fato levada em conta. Além disso, quando se dá atenção a tais condicionantes, nota-se uma dificuldade de nós estudantes as incorporarmos as nossas práticas, haja vista o pouco contato que temos, ao longo da graduação, com discussões acerca desses temas.

Figura 4: O arquiteto e a mão divina.

No final de 2017, o Rio Jaguaribe (fig. 5), o rio que estudarei em meu trabalho final de graduação, começa a passar pela intervenção promovida pelo governo do estado da retificação de seu curso. Naquele momento, no primeiro dia em que vi os tratores escavando suas margens e aterrando suas águas, tive a sensação de perda, de morte. Desde aquele dia, fiquei um tempo sem saber como pensar nele: sabia que não deveria restaurá-lo, que sequer poderia fazê-lo aliás. Restaurar para onde? Em que espaço-tempo? Para antes da retificação de suas margens? Para antes da ocupação ostensiva de sua planície de inundação, ou para antes de qualquer ocupação humana? Retornar não é uma opção, por mais “sedutora” que pareça. Percebi então que não somos treinados o suficiente no curso de arquitetura para lidar com remanescências, para lidar com o fim. Ao contrário, um dos maiores desejos do arquiteto modernista é o “começo”, um terreno “vazio” (e se estiver vegetado, deve ser devidamente “limpo” para dar lugar à obra arquitetônica), uma mata “virgem”, o Éden:

o mundo tal como existia até o sexto dia da Criação, isto é, como um cenário montado à espera do ator principal, o “Homem”. O Éden é um mundo-sem-os-humanos que é um mundo-para-os-humanos; os humanos são os últimos a chegar, e são, nesse sentido, o “fim” (a finalidade) do mundo. (VIVEIROS DE CASTRO; DANOWSKI, p. 37, 2014)

Deste modo, um rio retificado ou um bairro extremamente adensado não possuem mais qualidade de Éden, sendo destituídos de seu aspecto “natural” que lhes façam alvos de modernas intervenções arquitetônicas. Muito falamos de lote, mas pouco de paisagem. A paisagem não nos deixa escapatória que não encarar os vários fins que transcorrem. Para tanto, se faz também necessário escapar do viés modernista — cujo purismo nos aprisiona entre o antagonismo de preservar o “Éden” e trilhar a curva sempre ascendente do “progresso” –, adquirindo novas ferramentas teórico-metodológicas que nos auxiliem a lidar com estas demandas as quais, embora não sejam novas, ganham maior visibilidade no momento presente em que, segundo Viveiro de Castro e Danowski (2014), as histórias natural e a humana colidem.

Figura 5: Rio Jaguaribe, antes e durante o processo de retificação. Fonte: À esquerda: foto por Gustavo Guimarães; à direita: foto por Reginaldo Ipê.

Referências

Cronologia do urbanismo. Projeto da Ville Radieuse. Disponível em: <http://www.cronologiadourbanismo.ufba.br/apresentacao.php?idVerbete=1580> Acesso em: 2 out. de 2018.

Merin, Gili. “Clássicos da Arquitetura: Ville Radieuse / Le Corbusier” [AD Classics: Ville Radieuse / Le Corbusier] 09 Mai 2016. ArchDaily Brasil. (Trad. Souza, Eduardo) Acessado 22 Out 2018. <https://www.archdaily.com.br/br/787030/classicos-da-arquitetura-ville-radieuse-le-corbusier> ISSN 0719–8906

Museu virtual de Brasília. Plano Piloto. Disponível em: <http://www.museuvirtualbrasilia.org.br/PT/plano_piloto.html> Acesso em: 22 out. de 2018.

VIVEIROS DE CASTRO, E.; DANOWSKI, D. Há mundo por vir? Ensaios sobre os medos e os fins. Desterro, Florianópolis: Cultura e Barbárie: Instituto Socioambiental, 2014.

*Juna Borges Vital e Silva é graduanda em Arquitetura e Urbanismo pela UFBA e integrante do projeto de pesquisa Restinga: Estudo e reinserção do bioma na paisagem urbana de Salvador.

**Texto elaborado pela autora como ensaio sobre Finitudes para o curso Antropologias no/do Antropoceno, ministrado por Thiago Cardoso, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal da Bahia, 2018

Antropologia, Ecologia Política e Contracolonialismo no Antropoceno twitter: thiagotxai Academia:ufam.academia.edu/ por Thiago Cardoso

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