Onde fica o fim? lugares, pessoas e ancestrais

Por Lara Rosa

Uma das interessantes reflexões trazidas por Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro em sua obra “Há mundos por vir? Ensaio sobre os medos e os fins” diz respeito a inclusão dos povos “terranos” na reflexão sobre a finitude. No livro são abordadas as cosmologias dos povos indígenas de diferentes etnias trazendo elementos para pensar sobre os “fins”vários, já vividos por esses povos e os que estariam por acontecer. Suas formas de viver “Gaia” ou “Pachamama”, como sugere os autores em uma provocação a Bruno Latour, implicariam em formas diversificadas de práticas e relações. Os muitos fins não seriam necessariamente eventos catastróficos e únicos, mas processuais que os “modernos”/”brancos” não necessariamente saberiam reconhecer ou intervir nas escalas apropriadas.

Gostaria aqui de fazer uma reflexão sobre a questão do fim, não somente do mundo; mas da vida e da agencialidade. Procurei traçar aproximações entre as reflexões de Danowski e Viveiros de Castro (2014) sobre a finitude para os povos ameríndios com espécies de “tecnologias” dos cultos aos egun, espíritos ancestrais afro-brasileiros. O destaque será em como o culto aos ancestrais lidam com fim das vivências terrenas corporais no Ayê, traduzível aqui como Terra.

Para tanto é importante salientar que nas religiosidades afro-brasileiras1 as pessoas - no sentido das reflexões de Marcel Mauss - são construídas paulatinamente em processos rituais complexos que muitas vezes perpassam boa parte de sua existência (GOLDMAN, 1985; 2009). Virtualmente uma pessoa teria consigo uma espécie de “Devir” relacionado a algumas entidades e/ou elementos que seriam “feitos” em práticas específicas; dessa forma a pessoa iria se constituindo dentro de um circuito religioso, sendo o “egun” parte dessa constituição da pessoa. Esse elemento de um iniciado após a morte do corpo físico pode passar por transformações e ser tratada em rituais específicos de “desfazimentos”. Porém, esse fim não será um fim por si só. Em muitas comunidades, mesmo após a morte de um iniciado, parte daquela pessoa pode ser homenageada, a exemplo o culto de Oyó, onde segundo Machado (2013) o orixá de uma liderança pode ser cultuado; ou em cerimônias específicas do candomblé onde algumas figuras importantes da qual uma casa descende pode ter seu axé, força vital, invocado (SANTOS, 1975). Já nos cultos de Babá Egun alguns iniciados após rituais e cuidados prolongados (7 anos) podem “Nascer” ou “renascer” em roupas sagradas, o axó, na condição de Babá Egun.

A história das casas de culto a Egun em Ponta de Areia, povoado do município de Itaparica na Baia de todos os Santos, remete a períodos de escravização de africanos e africanas no Brasil. Segundo Castellucci Junior (2018) um dos fundadores do culto na região teria sido um escravo liberto conhecido como Marcos-o-velho um comerciante da pesca de Baleia — A Beleação foi uma importante atividade na Ilha de Itaparica no século XIX. Esse fundador teria viajado ao continente africano e trazido de consigo um ancestral, Babá Olokotun, ainda hoje cultuado nos terreiros da localidade e conhecido como Olori Egún, aquele que responde pelos ancestrais africanos e afro-brasileiros (SANT’ANNA SOBRINHO, 2015).

Entendo que a noção de fim aqui em questão envolve as pessoas, mas também as histórias e os lugares. Sua concepção do que é o fim está dissonante dos modernos e não é colocada em termos de encerramento. Como nos casos dos Babá Egun, onde o fim — ou a morte — é um momento onde a pessoa ainda pode ser “feita”, colocando em prática tecnologias nativas que exploram “multiversos”. A recriação dos Cultos de Egun em Ponta de Areia, através do trabalho ativo de recomeço de fins como no exemplo de Babá Olokotun, talvez esboce uma dessas formas de lidar com a finitude e com a ancestralidade. Entretanto, esse não foi o único momento de recomeço dos cultos de Egun em Ponta de Areia, houveram momentos de perseguição policial racial e religiosa ao culto em 1940 onde importantes lideranças da comunidade do terreiro Ilê Omo Agboulá Eduardo Daniel de Paula e Dona Margarida foram presas, tendo posteriormente de mudar a localização da casa de culto. Essas mudanças ocasionaram uma existência de diversas paisagens que são consideradas habitadas e que ainda hoje precisam ser cuidadas e reverenciadas.

Em pesquisa de campo na comunidade de Ponta de areia, “terra de egun”, como me disse uma iniciada no candomblé, para caracterizar a diferença entre as duas religiosidades, algumas das minhas interlocutoras em suas falas se remetiam a temas que me fizeram pensar quais os limites entre os mundos dos ancestrais e dos adeptos e também sobre como pensar a finitude.

Em dado momento da minha visita de campo conversava com Maria2, uma interlocutora que possui “posto” numa comunidade de culto a Babá Egun, sentadas no sofá da sala em frente a uma Televisão desligada próxima a uma parede de quadros de fotos de familiares ligados ao culto, desenho de orixás e uma foto de sua filha, falávamos da possibilidade dela me levar a conhecer uma “mais velha” da casa. Maria me falava não ser possível pois por divergências familiares e pessoais não falava com essa senhora que também era sua sogra. No desenrolar dessa conversa, Maria lembra de uma antiga sogra sua, avó de sua filha, de quem ela gostava muito, e me relata o falecimento dessa mulher e sua ligação familiar com o culto aos ancestrais e como ainda relembrava de coisas boas que haviam vivido dizendo que para ela a senhora ainda estava ali.

Uma outra conversa também me remeteu às formas diversas de fim nesse contexto. Ocorreu quando uma das minhas interlocutoras, Joana, relatava sobre a festa da noite anterior que abria um fim de semana de comemorações a um ancestral e comentou que havia visto um Babá Égun específico pela primeira vez e que naquele momento viu a pessoa que teria sido aquele Babá e ficou impactada pelo acontecimento.

No culto aos egun as temáticas de “fim do mundo” não têm presença explícita, porém por meio de narrativas e elementos da religiosidade podemos pensar a finitude. A história, os lugares e as pessoas remetem aos vários fins possíveis que podem implicar também vários re(começos) envolvendo tecnologias do campo da religiosidade afro-brasileira em um plano onde a mundanidade se faz extensa e povoada por várias agencialidades. Compreendo que nesse contexto, os Babá Egun também podem ser considerados agentes no multiverso; e as práticas/concepções da religiosidade falam de inícios e fins por caminhos divergentes dos modernos contribuindo para pensarmos artefatos possíveis para mundo(s) por vir.

Bibliografia

CASTELLUCCI JUNIOR, Wellington. A árvore da liberdade nagô: Marcos Theodoro Pimentel e sua família entre a escravidão e o pós-Abolição. Itaparica, 1834–1968. Revista Brasileira de História, vol. 38, n. 78, p. 211–233, 2018.

DANOWSKI, Déborah; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Há mundos por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Florianópolis: Culta e Barbárie editora, 2014.

GOLDMAN, Marcio. A construção ritual da pessoa: a possessão no Candomblé. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro: v. 12, n. 1, p. 22–54, 1985.

______. Histórias, devires e fetiches das religiões afro-brasileiras: ensaio de simetrização antropológica. Análise Social, v. 44, n.190, p.105–137, 2009.

MACHADO, Cauê Fraga. Desfazer Laços e Obrigações: Sobre a Morte e a Transformação das Relações no Batuque de Oyó/RS. Dissertação de Mestrado (Antropologia Social). Rio de Janeiro: Museu Nacional/UFRJ, 2013.

SANT’ANNA SOBRINHO, José. Terreiros Egúngún: um culto ancestral afro-brasileiro. Salvador: EDUFBA, 2015.

SANTOS, Juana Elbein dos. [1986]. Os Nàgô e a morte: Pàde, Àsèsè e o culto Ègun na Bahia. 4. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1975.

1 A bibliografia abordada nessa reflexão debate sobre o candomblé de nação Ketu, Angola, Batuque (Rio Grande do Sul) e sobre os Cultos de Egun Afro-Brasileiros, não sendo generalizável para outras vertentes.

2 Os nomes aqui utilizados são fictícios.

*Lara Rosa é mestranda em Antropologia pela UFBA, interessada nas relacionalidades entre pessoas e espíritos, gênero e ecologia.

**Texto elaborado pela autora como ensaio sobre Finitudes para o curso Antropologias no/do Antropoceno, ministrado por Thiago Cardoso, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal da Bahia, 2018.

Antropologia, Ecologia Política e Contracolonialismo no Antropoceno twitter: thiagotxai Academia:ufam.academia.edu/ por Thiago Cardoso

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