Vivendo com a diferença: os povos indígenas e a biodiversidade

Roça de Mandioca Munduruku, Sawre Muybu (Thiago Cardoso)

Por Thiago Cardoso

Em 2017 foi publicado pela UNESCO (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization), o relatório Knowing our Lands and Resources Indigenous and Local Knowledge of Biodiversity and Ecosystem Services in the Americas[1].

O relatório é fruto de um trabalho intenso de pesquisa e de oficinas do task force on Indigenous and Local Knowledge Systems of the Intergovernmental Platform on Biodiversity and Ecosystem Services (IPBES) que, desde 2012, vem recolhendo informações sobre a contribuição dos povos indígenas e comunidades tradicionais ao redor do globo para a manutenção da diversidade de vidas em tempos de intensas transformações socioambientais.

O IPBES tem por objetivo organizar o conhecimento sobre a biodiversidade no planeta para subsidiar decisões políticas em âmbito mundial, algo como vem sendo realizado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) em relação ao clima do planeta. O IPBES inclui as seguintes considerações em seus princípios operacionais: “Reconhece e respeita as contribuições dos conhecimentos indígenas e locais para a conservação à biodiversidade e dos ecossistemas”[2].

O interessante é que os documentos produzidos no âmbito do IPBES contêm as singularidades dos países de cada região do globo e levam em consideração não só o que diz a ciência, mas toda contribuição das comunidades locais para a conformação de paisagens bioculturais e no auxílio a manutenção da biodiversidade. No caso das Américas o documento apresenta desde as experiências de restauração das florestas no sul do México aos saberes tradicionais e diversidades de plantas na Amazônia. Há também contribuições sobre pastoreio de Lhama nos andes e manejo da vida animal no norte da Bolívia.

Segundo antropóloga brasileira Manuela Carneiro da Cunha, “os povos tradicionais e indígenas são muito bem informados sobre o clima e a diversidade biológica locais — e, por isso, podem ajudar os cientistas a compreender melhor as mudanças climáticas e o problema da perda da biodiversidade”. Além disto “Acompanham com minúcia cada detalhe que constitui e afeta diretamente sua vida e são capazes de perceber com maior acurácia mudanças no clima, na produtividade agrícola ou na diminuição de número de espécies de plantas e animais”, aponta a antropóloga.[3] Neste sentido deve se apoiá-los e envolvê-los em suas iniciativas e nas decisão relativas aos esforços globais de conservação, superando a noção de que os povos indígenas são ameaças à biodiversidade e incapazes de formular as condições para a proliferação da vida. Muito pelo contrário.

No caso dos povos das Américas é notória a histórica contribuições destes na construção e conservação de paisagens, no uso da terra, de animais e plantas, sua inovação e criatividade na proliferação da diferença ao invés de homogeneidade. O que vem sendo testemunhado por arqueólogos, antropólogos, ecólogos e etnobotânicos a décadas. Artigos como o de Claude Levi-Strauss destaca os mais de 20 gênero de plantas que vem sendo utilizados, provindo dentre outros, frutos, óleos, fibras, condimentos e medicina[4].

Estudos contemporâneos sobre a ocupação da Amazônia vêm concluindo que o que pensamos como floresta virgem, não manejada, selvagem, é na verdade um grande laboratório ao ar livre de experimentação de modos de convivência biocultural. A Amazônia seria fruto da interação histórica entre humanos e outros modos de vida, de plantas, animais, água e espíritos que performam em suas práticas diárias as condições para existência da diversidade. Plantas e paisagens eram, e vem sendo, transformados de forma cuidadosa. Algo muito pouco reconhecido pelos governos e cientistas.

Escutar os saberes dos povos da floresta já é um bom caminho. Mas, mais do que escutar, estudar e catalogar, como se os conhecimentos indígenas fossem “tesouros” a serem descobertos, ou dados a serem armazenados e disponibilizados e usados quando se desejar, provoco-os a olhar tais saberes como processos autônomos, criativos, vivos e em andamento, composto por formas de conhecer que continuamente se recria e cria diversidade.

Diante da hecatombe do encontro colonial e dos atuais projetos modernistas de desenvolvimento e progresso emplacados em várias regiões onde vivem os povos indígenas e comunidades locais, por corporações privadas e governos de diferentes matizes políticos e ideológicos, devemos nos perguntar sobre quais projetos de mundo queremos nos engajar, os que visam o viver com a diferença ou os que buscam aniquilá-la.

tradução de Living with difference: indigenous peoples and biodiversity

http://deepforestfoundation.com/journal/living-with-difference-indigenous-peoples-and-biodiversity

[1] Brigitte Baptiste, Diego Pacheco, Manuela Carneiro da Cunha and Sandra Diaz (eds.) In press. Knowing our Lands and Resources: Indigenous and Local Knowledge of Biodiversity and Ecosystem Services in the Americas Knowledges of Nature 11. UNESCO: Paris. pp. 200.

[2] UNEP/IPBES.MI/2/9, Appendix 1, para. 2 (d)

[3] Source: http://www.jb.com.br/ciencia-e-tecnologia/noticias/2013/07/22/povos-tradicionais-tem-papel-crucial-na-conservacao-da-biodiversidade/

[4] Lévi-Strauss, Claude. “The use of wild plants in tropical South America.” Reprinted from Smithsonian Ins t., Bur. Amer. Eth. Handb. S. Amer. Ind. 6 (1950): 465–86.

Antropologia, Ecologia Política e Contracolonialismo no Antropoceno twitter: thiagotxai Academia:ufam.academia.edu/ por Thiago Cardoso

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